sábado, 29 de junho de 2013

481. TARDES QUENTES DA CARNE





revolta-se o mar quando o vento nasce no fim do outono

na casa amarela do lago ela penteia os seus longos cabelos

cedo cantam as cotovias no cipreste solitário

no quarto a mão escassa não se abre à cintilação das pétalas rosadas

quando a neve começa a cair à beira-mar

amor morto derramado no regato da montanha
estio voluptuoso das tardes quentes da carne
porquê aguardar por um tempo que nos foge?


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480. AMOR FÉRTIL QUE SE ESGOTA





chuva da noite passada na reclusão de inverno
em profundas raízes floresce o meio-dia das estrelas

não durmo
a noite espreguiça-se com os caninos semicerrados
deixando a rua enlameada e triste alheia ao ribeiro de águas mornas e pacíficas

o mundo não é o que nos parece e muito menos
o que de mãos postas nos promete

no odor dos pinheiros resinados em florestas imensas
está o tempo do amor fértil que se esgota


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479. AMOR QUE DA CARNE NASCE E NO ESPÍRITO CRESCE





uma onda outra e uma outra

o corpo nu sulcado no areal
estende-se como nau de alísios
para teus lábios cerrados
ao encanto

sem palavras na nudez do silêncio
surdez do oceano
ouve-se um leve gemido
de guitarra apaixonada

os dias correm sobre as águas
apenas as auroras vivem
todo o resto é nada

busquemos ambos
as pegadas do amor 
passos nas praias cinzentas
da mão de névoa em repouso

sejamos
amor
que da carne nasce e 



478. SÓ MORRE QUEM NÃO TEM UM CORAÇÃO ONDE MORAR





deixo que meus olhos vejam as árvores em movimento
são apenas árvores em movimento 
em vaivém ao luar
árvores que movimentam o meu pensamento
numa sem-direcção enquanto suave a noite cai

cuido de ti amigo
como quem cuida da criança amada

sem desejos nem projectos
é longa a oração –
penitência-sem-destino

cuido de ti amigo
como quem cuida a amar


queres estar
apenas estar
quente e em paz
só e acompanhado
sem palavras vãs
sem mais nada ter
queres estar
simplesmente estar
simplesmente ser

cuido de ti amigo
como cuida o amar

chegado o momento como é difícil decidir
poderei deixar-te partir para a bonança
se no teu modo de pensar ainda restar esperança
se no teu jeito de pedir nesta terra te queres quedar

vai     parte no teu jeito de amoroso olhar 
vai e se errei perdoa a minha fraqueza  
mas aguarda por mim no alto da montanha

só morre quem não tem um coração onde morar

entretanto cuidarei de ti amigo
bem dentro no mais profundo da minha alma
e saberei que não morrerás jamais


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477. AO JOÃO PESTINHA





ao joão pestinha

num dia de primavera
no crepúsculo vespertino
de um poente onde nascem as primeiras estrelas
e as giestas ainda florescem de amarelo
enquanto o luar desponta no horizonte
quando cansado
olhos tristes para mais não ver
sem nada para conhecer
recostarei a cabeça no teu dorso
para que a morte me leve na doçura da aragem

de madrugada sem pensamentos
partiremos de assedasse
eu de cana na mão
tu com o nariz ao vento
pelagem fulva a deslumbrar o sol
galgando as curvas do rio
as águas verdes e azuis
as escarpas graníticas
as margens sedosas

fingirei pescar
tu caçar
como fizemos sempre
afugentarei as trutas
assustarás coelhos e lebres
na serra que fala às estrelas
e que será sempre nossa
do mesmo modo que nós dela

no pai-diz
deitar-nos-emos no areão branco
olhando com ternura as estrelas
em irmandade aconchegados
tão juntos que ninguém perceberá que dois somos
aguardando a aurora
para nos transportar em seus raios
à erva da fome

livres como só nós sabemos ser
tu fingindo caçar
eu pescar
como sempre
numa existência eterna e circular



476. CALO E CONSINTO





corre uma leve brisa nos mastros
nus e em repouso dos barcos

olho o rio que lento desliza 
na direcção do mar

perde-se a vista no horizonte
da pequena vaga em s. julião
e amo-te em silêncio
no segredo dos oceanos
das nuvens e estrelas

quero bradar aos céus 
às criaturas e aos deuses 
quero cantar aos ventos
às florestas bosques
e encantamentos
a paixão o amor o alento
que faz cessar o sofrimento

mas calo e consinto
escondo e minto
quando afinal o que sinto
é tão atroz e violento
que só pode ser acalmado
pela voz em perpétuo movimento


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475. BRINCAR ÀS PALAVRAS COM PALAVRAS





brincar às palavras com palavras
signos sinais
que num conjunto imperfeito
são como todo o resto reais
folguedos
palavras que não são coisas nem seres
homens mulheres crianças mas brinquedos

brinco convosco como quem brinca à beira do rio
às pedrinhas redondas macias ágeis e alegres 
e no mar aos caranguejos tontos da maré vazia
para não estar só não preciso de estar acompanhado
para não estar triste não necessito de rir
só quero se querer tenho na corrida da vida
ir e vir e brincar com palavras com gente contigo
com frases palavras comigo

não sei o que digo não me interessa
o que sou vou ou deixo de ser se a percepção da morte
me dá uma pressa contínua até desfalecer
escrevo um amontoado de letras de frases de tretas
que a hora é de escrever
tanto faz o que penso     melhor seria não pensar
o que a mente soletra a ingénua filosofia dita
escrevo palavras irreais soltas imparciais fontes de estio
prostitutas gastas de ruelas retalhadas e sombrias
brinco e rebrinco pulo no vazio
e vou dizendo a brincar como é sério
este juntar de letras e frases sem pensar


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474. SOU O QUE NO MUNDO TE PROCUREI





sou o que no mundo te procurei
que por velhos caminhos desviados
passo a passo pelo deserto errei
e na mesa e leito dos transviados

me sentei e deitei sem cuidar do pecado
que no corpo sentia e na alma crescia
sou o caçador errante que ao veado
neguei inevitável flecha porque bramia

sem dono compassivo desesperado
mortal imerso em floresta negra
sem candeia que no escuro alumia

pobre alma que de tão vazia
não sabe o que é certo ou errado
nesta noite suja a negar o dia


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473. CANSADO DE TANTA MORTE





a curva da estrada

apesar do quebranto
algo me impele a estancar

há sombras vivas 
que repousam no asfalto
árvores retorcidas 
que já deram o seu fruto
vinhedos esquecidos

o sol brilha através dos ramos dos pinheiros bravos
um lavrador come a merenda à sombra de uma fraga
a mulher prepara estacas
o semeador descansa e bebe
o vinho com a frescura da água da mina
ao seu lado
pão de centeio
queijo 
um naco de presunto velho

sorri
o seu sorriso arrasta-me pela memória dos tempos
o seu sorriso é rosa-do-mundo
vejo-me nos calções azuis cor de céu e na alva branca de domingo 
há missa 
os sinos tocam
casimiro casmiro casmirito mirito miro
o meu amigo-louco
da infância perdida
miro
o louco
do sorriso infinito
aberto
livre
ingénuo
contagiante
que ia à igreja só para me ver ler

sinto saudades
não sei se da vida 
se da morte
se do mal 
se do bem
sinto saudades
e sentir saudades
é ter feridas
sangrantes
mas sempre é melhor
ter saudades
que não ter nada

sento-me no muro em pedra circular
vejo um vulto no chão
(eu que desde criança vejo coisas
coisas que não devia ver) 

foi aqui que miro veio morrer

estou cansado de tanta morte


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472. MIRITO O MEU AMIGO LOUCO




Bronzino




mirito nasceu 
nasceu num palheiro 
como jesus

paredes de pedra rude 
amontoada 
pedra não aparelhada 

telhado de colmo
donde se espreitavam as estrelas e sentia a chuva fria entrada em dia de borrasca

na torre da igreja o sino tocava tocava
mirito nasceu de rosto belo e já trigueiro 
ao som da ave-maria

que deus o abençoe disse a mãe 
que a senhora da fátima seja sua madrinha e lhe faça a cruz na testa para afastar demónios e tentações 
disse a parteira da aldeia tia zefa do moinho 
a zefa da anunciação

a vizinha madalena rezou um padre-nosso 
e uma oração calada para ninguém ouvir a não ser nosso senhor

não te esqueças mulher de acender uma vela na santa eufêmia 
uma vela do tamanho do rapaz
tanto faz 
respondeu a parturiente 
a vela terá o tamanho da minha bolsa 
o que vale é a intenção 
e olha que a tua oração não irá cair em cesto roto


mirito nasceu
mirito cresceu


nasceu em noite de luar
de sombras a afagar a pobreza
e com o sino a tocar a tocar
prenúncio de tristeza
anúncio de morte a bailar a bailar

na escuridão a luz
no altar a cruz
que mirito haveria de carregar 
correia a enlaçar 
de aldeia em aldeia 
cantando e dançando melodias desconhecidas
até que um qualquer arimateia 
o levasse a sepultar em cova funda e anónima 
depois de o encontrar caído na curva da estrada poeirenta e resplandecente de luar

encontrá-lo-ia
agonizante sem remédio nem cura 
sem glória 
com a senhora morte ao lado


diria se pudesse
estou certo miro diria
se o soubesse 
leva-me para o norte que calor não suporto
leva-me para o norte onde é doce a morte 
doce e alva de neve pura 
onde perco a memória 
de vida malfadada

eu sou o mirito leve gentil louco e sem dono 
eu sou o próprio norte 
a liberdade 
a tristeza 
e a força da natureza
eu sou tudo o que o homem não é e despreza 
não sou como os demais

sou miro 
servo da terra 
dos céus 
das estrelas 
de bonanças e temporais e
quero ser enterrado em cova funda 
onde animais e homens não possam 
nem encontrar 
nem incomodar
que ressuscitar não quero


mirito cresceu descalço 
roto 
esfarrapado
com sobretudo de alto a baixo rasgado

sobretudo do inverno 
sobretudo do verão
sobretudo da chacota da garotada da freguesia
crueldade de rapaziada
para com o pobre desgraçado 
que andava andava e se sóbrio se escondia
em qualquer pinheiral


mirito não foi à escola 
não aprendeu a ler 
a somar 
nem seu nome aprendeu a escrever 
mirito não aprendeu a brincar

não foi à escola e de nada lhe serviria
contava até dois e depois 
qualquer número servia
oito cinco dez quatro 
raramente mencionava o três
letras não as conhecia
nem o   a  e  i  o  u

falava entaramelado 
mas asneiras dizia 
escorreito quando o arremedavam
essas eram poucos os que as não entendiam
mas na escola não se ensinavam apenas se aprendiam e quem as já conhecia 
afinal que proveito tirava de horas mortas a inquietar outros garotos

nunca aprenderia a ler 
a contar 
ou escrever
e mesmo que algo aprendesse 
seria necessário querer 

por injustiça assim nasceu 
vagueando ora soturno 
ora alegre feito bobo 
percorrendo
aldeias
povos
quintas
sendo escorraço de quintaneiros
pouco falando 
por não querer 
ou não saber que dizer


mirito cresceu com o vinho e com aquela cabeça tonta que desagrada aos homens e agrada a deus


um copo aqui outro além 
por alma de quem lá tem
vá lá um copo não faz mal é mirito quem diz
vá lá por um momento faz mirito feliz

vai-te embora rapaz 
o vinho ataca-te a moleirinha 
ficas mais estouvado do que és
bebe sumo 
um pirolito 
uma gasosa e 
dou-te um quarto de trigo com manteiga da arca

daí o enganava o taberneiro intentando besuntar o pão com margarina da lata suja ou com molho velho das iscas a saber a ranço


quero vinho o resto come-o tu
e mirito crescia enquanto o sobretudo encolhia


os rapazes vinham dos campos 
alguns tocados à paulada da lavra por acabar

jogavam à bola no terreiro

mirito passava seguia sem saber para onde 
olhando saudosamente para trás
saudades sem saber de quê
saudades porquê

os rapazes brincavam com as raparigas 
dizendo-lhe coisas de que todos se riam
mirito sorria por ver rir mas não percebia

diziam-lhe 
cresce tonto depois se verá

alguns namoravam um beijo às escondidas
mirito sentia e sem saber como se fazia ficava triste 
uma tristeza natural acompanhada da ligeira brisa do pinhal ao lado do cemitério 
onde ensaiava com jeitos e trejeitos os beijos da moçada

imaginava uma bela moça 
como vira num jornal da venda 
e que lhe valera um pontapé no traseiro 
por olhar coisas de gente normal

até a formiga-tonta já tem catarro disseram

mas a bela loira de cabelos longos 
não lhe saía do toutiço
afinal só olhara para uma fotografia suja de vinho amarrotada de um jornal que parecia tão antigo como ele
ele que tudo daria para ter aquela fotografia 
como seria feliz namorando-a com os olhos todas a noites no seu leito de palha 
seria abençoado se a pudesse beijar ainda que papel

essa loira de quem se via um pedacinho dos seios estava-lhe na memória
enchia-lhe a mente inocente
não saberia o que fazer 
talvez mexer de mansinho na carne luzidia
talvez um beijo na face rosada 
ou na boca de dentes brancos

o restante desconhecia 
apenas sabia o que nas partes baixas sentia e por instinto tão bem lhe sabia

melhor lhe agradaria de outra maneira 
dizia-se em segredo na venda ao domingo
que por ter bom ouvido ouvia e ninguém lhe dizia
ela havia de o ensinar 
quem sabe se hoje à noitinha 
e por acaso 
aparecesse na curva deserta da estrada

e sonhava sonhava o pobre louco
que nem à escola fora
a bola jogara
na ribeira pescara
e nunca amara


e mirito crescia enquanto o sobretudo encolhia


pobre miro pobre louco
coitadito


a sua cabeça rodopiava como carrossel
da feira de s. bartolomeu

e via 
via coisas estranhas que o assustavam por momentos e rapidamente esquecia
coisas do diabo 
coisas assanhadas 
arrepiadas
que o possuíam e arrastavam pelos caminhos tortuosos na direcção de uma malga de vinho


ó meu mirito sofres tu e sofro eu


à noite 
no palheiro 
via demónios
uns sentados 
outros dependurados nas vigas de madeira velha e empenada

das frechas do granito amontoado 
soltavam-se espectros luminosos em riso rugido

demónios 
diabos 
fantasmas 
aparições 
diziam em voz rouca 
em gemido tremelicante
miro tu és doido varrido 
bêbado 
vai-te     vai-te 
vai-te     não durmas 
não te deixaremos dormir 
vê     vês 
vê a mulher loira de longos cabelos entrançados 
é feiticeira 
de todas a mais bela 
de todas as aldeias que conheces
vai-te enfeitiçar
vai-te encantar
serás um sapo e os rapazes irão pôr-te a fumar a fumar a fumar
até rebentar

foge miro 
foge 
foge para as sombras da noite
deixa-os na tua corte 
que fiquem com o curral
que nem teu é

que durmam na tua palha 
nos panos velhos cor de carreiro poeirento


carago     filhos de uma grande cabra 
que me não largam
raios os partissem 
almas de trinta diabos
tanto bento 
tanta bruxa 
tanto filho do demo
e da puta 
tudo para me causar tormento

e mirito noite dentro 
quilómetro a quilómetro 
ia da mata ao sobral 
do sobral ao ribeiro 
do ribeiro à aldeia-nova 
sem demora e tento
até raiar o primeiro raio de sol 
até ao sol nascente

quando o sol nascia o canto dos pássaros abafava o vozeiro dos diabos com figura de gente

catano     uma coisa assim     calai-vos deixai-me não vos quero ouvir almas do demónio

miro desesperava
miro gritava
carago     inde-vos


a venda abria e miro à porta da taverna 
olhava mudo o taberneiro estremunhado  
que já sabia ao que vinha
que já lhe conhecia o vício
  
um copo por deus para matar os demónios
um copo por nossa-senhora 
um copo para suster a agitação
cinco tostões para matar a sede 
tostão a tostão para matar o demo

pelas alminhas que com jesus lá tem 
pelas que no velório aguardam o purgatório 
com barrabás e o outro ladrão

vai-te daqui agoirento 
vai-te     vai-te 
que a satanás encarniçado 
nem vinho nem pão 
pede-o a judas que é teu irmão

um copo pelo seu descanso 
por alminha de sua mãe
e de seu pai também

pela mãe     pela mãe     pelo pai há pouco falecido 
agora sim tocara-lhe no coração

toma alma-do-diabo 
bebe

mirito bebia um dois ou três e ia sem direcção sem destino sem querer


pobre casmiro pobre louco sem-tostão
miro pobre-louco a quem as bruxas não deixavam sequer adormecer


em pequeno passava à minha porta 
ele já homem 
eu rapazito

tomava da gaveta alguns tostões 
tia cândida via e fingia não ver 
fazia a vontade ao filho-sobrinho 
que queria ser padre  
e tanto amava 
pobres 
loucos
velhos 
doentes
animais

zéia que vais fazer perguntava
nada de mais 
vou ver o mirito que me chama do caminho 
e logo  interrompia as orações ou fechava o livro de horas

dois três copos de vinho 

mirito cantava agradecido sabendo que aquela porta lhe estava sempre aberta 
enquanto eu ingénuo o olhava embasbacado na sua dança estrada fora braços abertos a rodopiar voz rouca a soletrar língua estrangeira

adeus mirito
amanhã passa por aí
eu peço à tia
e mirito sorria
e eu não sabia que sua alegria
e minha felicidade
nada valia ao agravar 
a doença de que padecia

adeus mirito 
pobre louco
até amanhã 
até outro dia
à falta de capão 
cebola e pão
à falta de um tostão
volta     volta que te darei 
do vinho da tia 
palavra 
tiro-o da adega 
às escondidas
ninguém vai ver 
ninguém vai saber


o sino toca para a missa 
ou é para o terço
não estou certo

eu cresço

mirito mais velho
o sino tange uma morte

eu estou no sul
mirito no norte

o sino toca a rebate
arde a encosta poente do vale

o incêndio belo ameaçador
já lavra no monte

eu estudo para doutor
mirito cada vez mais doente

o sino toca ave-maria
eu já não rezo

mirito o tonto não dança
eu já não vou à igreja

mirito com dificuldade anda
o sino toca toca sem cessar
e aquele pobre diabo está-me na alma
na saudade que o vento frio da serra traz
para as paredes negras da cidade

saudade que rói e dói


mirito pobre louco
eu também sofro


noite de inverno 
temporal
miro já não tem as mesmas forças
nessa altura eu vivia num jardim de betão com uma nesga de céu acorrentado à liberdade
miro está cansado eu tenho depressão
o sobretudo cada vez mais rasgado deixa passar frio chuva neve à roupa mais interior do esfarrapado
o vento bramia
vergava ramos de velhas árvores 
retorcia as novas há pouco plantadas
o vento gemia
nas sombras dos olivais 
nos espectros das nuvens baixas
fazendo rodopiar as folhas caídas

uma chuva fina e fria 
que se entranhava na miséria 
molhava-lhe a alma

miro continuava 
miro caminhava
tinham-lhe dito 
não te metas ao caminho 
mirito não os ouvia 
vou para a mata 
vou dormir

caminhava contra o vento 
que rodopiava

começou a nevar

já não havia demónios diabos 
almas de outro mundo
eram anjos alvos a bailar ao som do vento
sinos a tocar ave-marias
arcanjos que sorriam e o afagavam num leve arremesso

a neve caía caía em desconhecida melodia
melodia que nenhum bach comporia
e vestia-o de branco puro

miro parecia uma pomba no escuro
um dominicano em êxtase de alegria

mirito pobre louco sorria e ria
dançando ao vento e à neve
com anjos e querubins de verdade
e jesus menino que assistia enternecido a ver
tanto amor e liberdade

chegado à curva dos sonhos
da loira encantada
miro cansado
deixa-se tombar no valado
exausto a dormir
a sonhar a sonhar com o amor
que sempre lhe fora negado


os anjos entenderam
jesus concordou
maria sorriu
melhor seria fazê-lo ascender
mirito faria o céu feliz
haveria festa e alegria 
uma felicidade imensa
bondade e inocência
de homem que sempre fora petiz

ave-maria
ave-maria


miro pobre louco meu bom amigo


casmirito morreu no inverno
mirito subiu ao céu entre anjos e arcanjos